Sexta-feira, 20 de Janeiro de 2012

TRIUMBEATO nº 3 (Janeiro): AS ESCOLHAS DE VIDA


Mês de Janeiro – AS ESCOLHAS DE VIDA

1. (As escolhas de) Pier Giorgio Frassati

Com o novo ano que agora começa, somos convidados a dar um passo mais nesta nossa re-leitura da biografia do jovem Pier Giorgio Frassati. E é interessante registar uma interessante sintonia entre este nosso exercício e o pensamento do Papa Bento XVI. Dizemos isto porque, na sua Mensagem para o Dia Mundial da Paz, aponta precisamente os jovens como os protagonistas da mudança a operar no mundo actual… Por isso, é da maior actualidade que nos aproximemos desta nova (que haveria, infelizmente, de ser também a última) fase da vida de Pier Giorgio.

(Re)lendo-a e registando as pequenas-grandes opções que esta lhe exigiu, damo-nos conta de que a fé e a esperança de Frassati sempre foram mais fortes do que as dificuldades que enfrentou. Por isso, é outra a feliz coincidência que nos apraz registar: como exímio e experimentado alpinista que foi, Pier Giorgio soube sempre que “o caminho certo é aquele que sobe” (para citar o célebre romance As Vinhas da Ira de John Steinbeck), sabendo que apenas dirigindo-se “in altum” (=para o Alto) da profunda e radical humanidade, a (sua) vida poderia atingir o seu cume. Por isso, e apesar do vigor dos seus passos em direcção à santidade, esta derradeira etapa não é sinónimo de distância em relação aos que com ele caminharam: o cume que Pier Giorgio nos propõe é de altura directamente proporcional à profundidade da fé e do compromisso para com os irmãos, especialmente os que mais sofrem. Só assim se justifica e se compreende que tenha sido exclusivamente em favor e ao serviço deles que o jovem Frassati orientou as “opções fundamentais” da sua vida. E este é um dos seus maiores ensinamentos.

A juventude de Pier Giorgio Frassati: o culminar de um projecto

Ler a vida de Pier Giorgio, especialmente quando esta atinge a idade juvenil e começam a aparecer no horizonte, cada vez mais próximas e por isso mais nítidas, as escolhas decisivas que a esta dizem respeito, é sinónimo, muitas vezes, de um constante encontro maravilhado com o eloquente exemplo-testemunho de uma enorme coragem e determinação (próprias de uma juventude que não desiste de sonhar e de acreditar). Numa das suas cartas, o jovem Frassati resumiu, deste modo, o seu “projecto de vida”:

"Nós - que, por graça de Deus, somos católicos - não devemos gastar os anos mais belos da nossa vida como desgraçadamente fazem tantos jovens infelizes que se preocupam em gozar os bens terrenos e não produzem nada de bom, mas que apenas fazem frutificar a imoralidade da nossa sociedade moderna. Devemos treinar-nos, a fim de estar prontos para travar as lutas que, seguramente, teremos de combater pela realização do nosso programa e para assim darmos à nossa Pátria, num futuro não muito longínquo, dias mais alegres e uma sociedade moralmente sã. Mas para tudo isto é preciso: a oração contínua para obter de Deus a graça sem a qual as nossas forças são vãs; organização e disciplina para estarmos prontos para a acção no momento oportuno e, finalmente, o sacrifício das nossas paixões e de nós mesmos, porque sem isso não se pode atingir o objectivo."

Traçada a rota, é hora de perguntar: e como concretizou Frassati este desígnio? Porque é no exercício da nossa liberdade que a nossa História se constrói, porque é nas opções e decisões (mais ou menos importantes, mais ou menos “decisivas”) que o nosso Futuro (sonhado) se faz Presente (vivido), atrevemo-nos a deixar a resposta para alguns dos momentos marcantes desta fase da sua vida…

Não foram fáceis os primeiros anos da juventude de Pier Giorgio: aos 17 anos, e após ter frequentado num só ano os dois últimos do liceu, Pier inscreve-se no curso de Engenharia Industrial Mecânica no Instituto Régio Politécnico de Turim, “com a intenção de se especializar em Engenharia de Minas”. Contrariando todos os planos traçados por seu pai para o seu futuro, o jovem Frassati deixa-se tocar pelas dificuldades sentidas pelos mineiros (o grupo operário mais explorado do seu tempo), fazendo a sua escolha profissional coincidir com a sua radical vocação ao serviço dos demais. Foi, portanto, com grande coragem e determinação que Pier Giorgio assumiu mais este desafio na sua vida. Para atingir tal objectivo, e porque já são conhecidas as suas dificuldades no plano dos estudos, especialmente nos de carácter mais teórico/especulativo, teve que estudar dia e noite, passando “todos os dias com os livros, alternando o estudo com a oração – para ele tão indispensável como o ar que respirava – e o serviço aos pobres“. Com efeito, e apesar das grandes responsabilidades como estudante, nunca o jovem Frassati deixou de ter tempo para aquilo que mais força lhe dava: a oração e a partilha. Impressiona, ainda assim, que tenha decidido, em Novembro de 1918 (no mesmo mês em que ingressou na Universidade) inscrever-se na Confraria de São Vicente de Paulo. Apesar de ser pouco quer o tempo quer o dinheiro de que dispunha, tudo fez para aliviar, quer material quer espiritualmente, as dificuldades sentidas por alguns dos 50 mil pobres que, oriundos do Norte e do Sul de Itália, acorriam ao “triângulo industrial” formado pelas cidades de Turim, Génova e Milão, guiados pela miragem (que se convertera em sonho frustrado) de melhores condições de existência. Mal pagos e em grande maioria analfabetos, “moravam em colmeias humanas” (vejam-se os filmes “Tempos Modernos” de Charlie Chaplin, Cidade de Deus de Fernando Meirelles ou o documentário “Complexo. Universo paralelo” de dois irmãos portugueses, Mário e Pedro Patrocínio…); “vivendo uma existência de miséria, nalguns aspectos sub-humana” eram, assim, os mais pobres entre os mais pobres, captando e exigindo, por isso mesmo, de Frassati a maior das disponibilidades.

Como se tal não bastasse, Pier Giorgio não podia contar nem com a ajuda nem com a compreensão dos seus mais próximos nesta sua opção: seus pais não só desconheciam as suas “andanças” pelos tugúrios de Turim como lhe censuravam a sua constante ”cabeça no ar”; para eles, seu filho era um ser estranho, uma “criatura rara e misteriosa” que só lhes trazia preocupações. “Vais ser um homem inútil aos outros e a ti mesmo”: era este o veredicto do seu pai quanto ao seu futuro (uma visão tão distante da realidade quanto injusta)… E nem a sua irmã, outrora sua fiel confidente, compreendia as suas atitudes e opções…

A rápida ascensão política de seu pai fez com que Pier Giorgio e toda a sua família se mudassem, em 1921, para Berlim. Mas nem essa radical mudança o fez perder o rumo: numa carta enviada a sua avó logo após a chegada à cidade, Pier Giorgio confessa: “Espero conhecer dentro em breve o ambiente estudantil e operário católico, de modo a ter os mesmos hábitos que em Turim.” Eram-lhe estranhos os ambientes das festas, cerimónias, bailes (que tanto seduziam sua irmã Luciana) em que sua família frequentemente participava, sendo entre os pobres e os marginalizados de Berlim que o jovem Frassati, à imagem de Jesus Cristo, se sentia em casa e em família. Era, por isso, muito comum encontrá-lo nas reuniões dos estudantes e operários católicos da cidade, partilhando dos seus problemas e dificuldades, comendo com(o) eles (d)o mesmo pão arduamente amassado com “sangue, suor e lágrimas” de uma existência deveras difícil.

Rapaz afável e de espírito arejado, teve também oportunidade de privar de perto com figuras proeminentes de então. Entre elas contam-se dois “Karls”: o padre Karl Sonneschein, cujo exemplo o inspirou para a criação de novas formas de debate e de encontro entre estudantes e operários, e Karl Rahner (que viria a ser um dos mais importantes teólogos de todo o séc. XX), em cuja casa familiar em Friburgo Frassati viveu durante um mês. Aí, decidiu manter viva outra das suas paixões - a pintura – aproveitando a estadia para frequentar riquíssimas galerias de arte, visitar os museus da cidade, preenchendo o olhar (e, através dele, a própria alma) da beleza que brotou da inspiração de homens como Monet, Rubens ou Rebrandt… e para a qual já desde pequeno despertara, quando deambulava pelos campos da sua cidade natal…

E era especialmente nesses momentos de descontracção e fruição que Deus vinha ao seu encontro, alertando e apelando à sua liberdade (que ele considerava ser “a coisa mais bela e melhor que Deus deu a todos os homens (…) sem a qual a vida se torna insuportável”): certo dia, questionado pela senhora Rahner sobre qual era o seu projecto vocacional, confessa que gostaria de ser padre (em 28 de 1922 haveria de receber, em Turim, o hábito de Terceiro Dominicano­…)… Não obstante, tendo em conta o fraco exemplo do enorme distanciamento dos padres italianos face às reais necessidades do povo, Pier Giorgio havia decidido que seria como leigo (e mais concretamente como engenheiro de minas) que daria um mais profundo e eficaz testemunho cristão. Por outro lado, “os seus familiares nunca lhe teriam permitido que se fizesse padre”… eis como, mais uma vez, como diz o povo: “Deus escreve direito por linhas tortas…”. Um outro dia (já em Fevereiro de 1923), desta vez na montanha, Pier Giorgio conheceu o seu grande amor: Laura Hidalgo. Foi uma espécie de “amor à primeira vista”: como ele, Laura amava a montanha, participava dos movimentos estudantis católicos da época… mas… (“há sempre um mas”) era de uma classe social inferior à de Pier Giorgio, facto que, se para ele não tinha nada de problemático (tão loucamente apaixonado estava por ela que sonhava fazê-la sua companheira de toda a vida), para seus pais (gente que tinha tanto de “chique” como de “snob”) tornava impossível qualquer hipótese de relacionamento/compromisso sério futuro. Consciente de tudo isto, foi “com a morte no coração” que Frassati decidiu renunciar ao seu amor, uma decisão que lhe provocou um abatimento nunca antes visto, especialmente para quem conhecia a sua valentia, coragem e determinação diante de qualquer dificuldade (como o seu padre preceptor, a quem Pier Giorgio não deixou de pedir conselho numa hora de tanta angústia). E, mais uma vez, é a Deus que entrega, ultimamente, o seu sofrimento, quando confessa, por carta, ao seu amigo Bonini: “Para quem crê, as controvérsias da vida não são objecto de abatimento, mas servem de emenda e de aviso enérgico para se retomar caminho, talvez momentaneamente abandonado. Pois bem, o meu programa consiste em converter a simpatia especial que sinto por ela [Laura] (…) a fim de que possamos chegar, à luz da graça, à respeitosa união da amizade. (…) É este o meu programa que espero com a Graça de Deus atingir, embora me custe o sacrifício da vida terrena, mas pouco importa…”

A esta complicada situação acrescia, na altura, o agravamento do já de si difícil contexto familiar, para o qual acrescentar à ruptura causada pelo casamento de sua irmã Luciana (24 de Janeiro de 1925) uma outra ruptura seria catastrófica: “Destruir uma família para criar outra – escrevia Pier Giorgio – seria um absurdo e uma coisa que nem sequer queria pensar. Serei eu o sacrificado; mas, se Deus quiser, seja feita a Sua vontade.” Falava assim quem, pouco tempo antes, tinha ouvido o seu próprio pai considerar “imbecil” o rapaz que aceitasse “casar com a mulher que o seu pai lhe indicasse”

No final do ano de 1924, já regressado a Berlim, dá-se conta do crescente amor para com o povo alemão, a quem manifesta o desejo de dedicar os frutos do seu estudo e trabalho, ajudando o país e a cidade na reconstrução. Mas, e novamente contra todas as suas expectativas, nem esse sonho haveria de poder cumprir. Com efeito, em 1925, ano em que Pier Giorgio contava concluir finalmente a licenciatura e poder, assim, tornar real o seu sonho que era também a missão que se sentia confiado a realizar, tudo se desmoronou: o seu pai, fazendo uso da sua forte influência, transfere um funcionário da Fiat para o seu jornal com o intuito de preparar Pier Giorgio para as funções de novo director administrativo. A resposta de Pier Giorgio à vontade de seu pai é de uma humildade e de um abnegação sem medidas: “O pai ficará contente com isto?” “E, tendo recebido uma resposta afirmativa, respondeu simplesmente: ‘Aceito.’ Foi o seu “fiat”, o seu ‘faça-se’, à vontade paterna. Um fiat resignado que deveria custar-lhe muitíssimo e que se iria juntar às muitas outras pesadas renúncias que enfrentara recentemente: não haveria de casar com Laura Hidalgo, nem seria padre nem, finalmente, haveria de partir para a Alemanha para trabalhar com ‘os seus’ mineiros do Ruhr.”

Surge, então, um Pier Girogio diferente: atingira-o uma magreza extrema, como se um imenso desgosto interior lhe consumisse as forças; as suas feições eram, agora, rígidas e pálidas; a jovialidade e alegria de outrora converteram-se num permanente e profundo cansaço, tanto mental como físico; Pier Giorgio “sentia-se uma espécie de náufrago que luta diariamente contra sebentas universitárias”, pois, para ele, a licenciatura era uma ideia fixa… mesmo que o seu término coincidisse com o início de uma vida que nunca desejou… Mas desta última “pena” só a morte o haveria de libertar definitivamente…

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Pista(s) para a tua reflexão…

Dos muitos ensinamentos que Pier Giorgio nos dá pela forma como orienta a sua vida/futuro, queremos salientar o seguinte: não importa o que se é ou o que se faz; o que importa é que, sendo(-o) e fazendo(-o), o sejamos e façamos para o bem dos outros. Quando assim é, nunca consideraremos como “des-empregado” (ou mal-empregue) o nosso tempo, o nosso esforço, as nossas canseiras, a nossa vida. Por isso mesmo se percebe também que, para Frassati, a “incarnação” não era uma palavra oca: assim como Deus, em Jesus Cristo, assumiu a nossa humana condição para, enquanto “Deus-connosco”/Emanuel, connosco caminhar ao longo da História, querendo ele resgatar os seus próximos do sofrimento, era com eles e a seu lado que deveria caminhar, fazendo-se um deles e como eles: “Quero ajudar o povo nas minas, ser mineiro entre os mineiros”, dizia...

Guiado por esta leitura (que te convidamos sempre a completar com a tua leitura pessoal da restante biografia),propomos-te que:

1. Durante uns momentos, reflictas no teu percurso/história pessoal. Procura identificar (e registar numa folha, se tal te ajudar):

a) em primeiro lugar, os “momentos decisivos” que contribuíram para que tu sejas o que és hoje e que foram fruto do uso da tua liberdade;

b) depois, aqueles outros “momentos decisivos” da tua vida que, mais do que fruto da tua liberdade, foram antes resultado do contexto e das circunstâncias (e para os quais pouco ou nada contribuíste).

Finalmente, reflecte sobre o “peso”/significatividade de uns e de outros na construção da tua própria personalidade… de modo a tentares perceber o (bom/mau) uso que tens feito da tua liberdade na descoberta da tua vocação / construção do teu projecto de vida…

2. leias o ponto nº 3 da Mensagem de Bento XVI para o Dia Mundial da Paz 2012, tentando responder às seguintes questões:

a) qual a definição de liberdade apresentada pelo Papa?

b) qual/quais os principais desafios colocados hoje pela sociedade a uma correcta vivência da liberdade?

c) de que forma os conceitos “liberdade”, ”verdade” e “justiça” aparecem aqui interligados na reflexão de Bento XVI?

3. partilhes com o teu grupo as tuas reflexões e indiques, em conjunto com eles, propostas de vivência mais plena da liberdade no mundo de hoje.

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2. (As escolhas de) Marcel Callo

Somos chamados à Felicidade. É uma luta constante ao longo de toda a vida. Cada passo que vamos dando, cada caminho que percorremos, cada opção que tomamos: tudo concorre para o projecto que vamos executando na nossa vida, fidelizando-nos ao compromisso.

“Ser feliz é saber o que se quer da vida. Felicidade vem da lealdade que tenho a mim próprio e ao sentido da vida” Enrique Rojas

Para onde me levas Senhor? O que quero fazer da minha vida? Quais são as minhas metas? Ter um projecto de vida coerente com a linha do Evangelho, construindo-o pouco a pouco, passo a passo até dar-lhe marcas de visibilidade no meu quotidiano – será esta a minha resposta.

“Quando uma pessoa descobre Deus, tem de O colocar no primeiro lugar da sua vida. Assim começa uma vida nova!” YouCat, 33

“Jesus Cristo é a Verdade tornada pessoa, que atrai o mundo a si. A luz que irradia de Jesus é o esplendor da Verdade.” Bento XVI, 10.02.2006

Muitos têm sido os que assumiram a vida orientando-a nesta linha. Entre eles, Marcel Callo, um jovem que encontrou toda a sua fecundidade na fidelidade a Cristo, demonstrando possuir uma determinação invulgar num contexto que em nada favorecia a sua opção.

Marcell demonstrou progressivamente um coração e um espírito determinado, assumindo pouco a pouco mais responsabilidades na Igreja e na vida associativa dos jovens da sua idade animando-os espiritualmente.

Pequenas escolhas

. a filiação no grupo de escuteiros, quando ainda frequentava a escola primária da paróquia;

. a inserção, pela primeira vez, no mundo do trabalho, na qualidade de aprendiz de tipógrafo (Verão de 1934), enquanto ia fazendo pequenas opções ligadas ao seu projeto de vida: a defesa do respeito mútuo entre os colegas de trabalho, moderando a sua linguagem e levando-os a respeitarem-se mutuamente, etc…;

. a entrada na JOC (Juventude Operária Católica), conseguindo que Roger (seu companheiro no trabalho) a ele se juntasse, organizando determinadas ações de fé, a que, com surpresa, iam aderindo outros companheiros.

“Juntos organizaram um testemunho público de fé para Sexta-Feira Santa. Às 15 horas desligaram, então a electricidade e pediram um minuto de silêncio para venerar a hora da morte de Jesus na Cruz. As pessoas ficaram tão surpreendidas que obedeceram.” Edith Stein, Marcel Callo, Titus Brandsma – Víctims of The Nazis – pag.45

“A Eucaristia dizia-lhe realmente muito e como não podia ir à missa todos os dias, procurava participar nela pelo menos um dia durante a semana.” Edith Stein, Marcel Callo, Titus Brandsma – Víctims of The Nazis – pag.46

“Quando a guerra deflagrou, em Setembro de 1939, o grupo da JOC deliberou que cada um dos seus membros participaria e comungaria na Missa um dia por semana. Marcel era quem assegurava o cumprimento da lista.” Marcel Callo, Titus Brandsma – Víctims of The Nazis – pag.46/47

Escolhas importantes

. aos vinte anos, começou a pensar em casar e constituir o seu próprio lar.

“Nos finais de 1941, conheceu uma jovem chamada Marguerite Derniaux… no final de 1942 ficaram noivos, embora não oficialmente. Aguardavam com entusiasmo o Verão, para fazerem o anúncio público do seu compromisso, numa grande celebração.” Marcel Callo, Titus Brandsma – Víctims of The Nazis – pag.48

. no ano de 1943, a 2ª Guerra Mundial, atingiu Rennes, com bombardeamentos por parte dos Aliados. Callo recebe a convocatória do Serviço de Trabalho Obrigatório na Alemanha. Questiona-se sobre a decisão a tomar: ir ou não ir?

“Não queria abandonar Marguerite precisamente agora que estavam noivos e aguardavam com tanto entusiasmo o casamento”. “Nem tão pouco, queria trabalhar para o odiado regime nazi.” Marcel Callo, Titus Brandsma – Víctims of The Nazis

A sua opção poderia ter sido a de se refugiar na clandestinidade, como tantos outros jovens, aderindo ao Movimento da Resistência. Mas “havia também o sentido de responsabilidade por parte da JOC para com os operários franceses na Alemanha.”

Marcel escolhe partir na qualidade de missionário, opção contida no seu projecto de vida, numa coerência sem limites até ao fim. “Um cristão, se não milita, não é digno deste nome”- palavras ditas a sua tia.

“A mensagem de vida de Marcel Callo afeta a todos nós. Jovens trabalhadores cristãos devem mostrar o brilho extraordinário daqueles que se permitem viver por Cristo e dedicar-se à libertação total dos irmãos” Homilia do Papa João Paulo II, na Eucaristia da Beatificação do Marcel Callo, Antonia e Pierina Morosini Mesina, dia 4 de Outubro de 1987

A ti, jovem cristão, cabe a resposta fiel e ativa de fomentar a vontade nas escolhas certas sem te desviares do que pretendes na busca do sonho que Deus tem para ti.

Inicia este momento com um pequeno vídeo “O restolho” de Mafalda Veiga. Acompanha a letra e deixa-te levar pela música. Centra a tua atenção no refrão “Mas é preciso morrer e nascer de novo…a vida não é dia sim, dia não… é feita em cada entrega...”

Reflete com os seguintes itens:

- Lê e medita sobre a passagem do Evangelho Mt5, 13-16. Que desafio nos é lançado? Sublinha a frase ou as frases que te tocaram mais.

-Em que medida encontras em Marcel Callo um exemplo de coerência entre o seu Projeto e a sua vida concreta? Refere algumas situações.

-Tê-lo-ão as suas escolhas conduzido a uma realização plena de felicidade? Explica o teu parecer.

-Reflete sobre alguns momentos da tua vida em que conseguiste fazer as escolhas certas e naqueles em te afastaste do que tinhas em mente. Como te sentiste numa e noutra das situações?

Restolho - Mafalda Veiga

Geme o restolho, triste e solitário
a embalar a noite escura e fria
e a perder-se no olhar da ventania
que canta ao tom do velho campanário

Geme o restolho, preso de saudade
esquecido, enlouquecido, dominado
escondido entre as sombras do montado
sem forças e sem cor e sem vontade

Geme o restolho, a transpirar de chuva
nos campos que a ceifeira mutilou
dormindo em velhos sonhos que sonhou
na alma a mágoa enorme, intensa, aguda

Mas é preciso morrer e nascer de novo
semear no pó e voltar a colher
há que ser trigo, depois ser restolho
há que penar para aprender a viver

e a vida não é existir sem mais nada
a vida não é dia sim, dia não
é feita em cada entrega alucinada
prá receber daquilo que aumenta o coração.

Geme o restolho, a transpirar de chuva
nos campos que a ceifeira mutilou
dormindo em velhos sonhos que sonhou
na alma a mágoa enorme, intensa, aguda

Mas é preciso morrer e nascer de novo
semear no pó e voltar a colher
há que ser trigo, depois ser restolho
há que penar para aprender a viver

e a vida não é existir sem mais nada
a vida não é dia sim, dia não
é feita em cada entrega alucinada
prá receber daquilo que aumenta o coração

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3. (As escolhas de) Chiara Luce Badano


Comecemos desta vez pelo fim, pela última etapa desta extraordinária aventura que foi (e é) a vida de Chiara Luce. Numa das suas últimas cartas, um mês antes da sua última viagem escrevia a dois amigos, depois de lhes ter agradecido todo o amor concreto que lhe tinham manifestado: “... queria pedir-vos um favor (não sei se vou conseguir fazer-me entender completamente): não queria nada que me pusessem num pedestal! (…) Jesus permitiu esta prova mas é mérito Seu o facto de eu conseguir aceitá-la (…) De meu há mesmo muito pouco. E vocês não pensem que são demasiado ‘pequenos’, porque não o são!” E reportando-se a um telefonema sublinha o que lhe tinha sido dito a propósito de ela se confessar não se sentir “à altura” e que tanto lhe tinha tocado: “é Ele quem nos eleva até à Sua altura. Não temos que nos preocupar. O importante é dizermos o nosso sim no momento presente”[1]

1. Nestes momentos últimos que sintetizam toda uma vida (mesmo se “exteriormente” breve) dois elementos se podem desde já sublinhar na tentativa de percebermos melhor as escolhas de vida de Chiara. Por um lado a consciência clara de que a primeira escolha é a de Deus por nós: é Ele que permite, é mérito Seu a aceitação, é Ele quem nos eleva. E, simultaneamente a certeza de que cada nossa resposta – cada nosso sim – o damos em cada momento presente!

2. Algum tempo antes, quando por consequência do avançar da doença e dos necessários tratamentos, tinha perdido a possibilidade de andar, comentava: “Se eu tivesse que escolher entre começar a andar ou ir para o Paraíso, escolheria, sem hesitar, ir para o Paraíso. A este ponto é única coisa que me interessa… Mas procuro não dizer isto, para não pensarem que eu me quero ir embora para não sofrer mais. Não é bem assim. Eu quero é ir ter com Jesus[2]

3. Diversas foram as vias percorridas para chegar a esta paixão, que foi também a primeira e fundamental escolha. Mas a Palavra, a Palavra de Deus viva e, particularmente o Evangelho teve um papel muito importante no caminho de Chiara. E assim, ainda aos onze anos, se lhe refere, em carta, a propósito de um encontro em que tinha participado e em que o Evangelho tinha sido a sua principal descoberta e de uma forma completamente nova: “Percebi que não era uma cristã autêntica porque não o vivia até às últimas consequências. Agora quero fazer desse magnífico livro o único objectivo da minha vida. Não quero e não posso continuar analfabeta de uma mensagem tão extraordinária. Como para mim foi fácil aprender o alfabeto, também deve ser fácil viver o Evangelho. Descobri aquela frase que diz “Dai e ser-vos-á dado”. Tenho que aprender a ter mais confiança em Jesus, a acreditar no seu imenso amor. Obrigado por esta grande dádiva, que todos os dias descubro de uma forma nova”[3]

Não era, no entanto uma escolha sentimental ou de um único momento: passa mesmo a escrever, à noite, antes de adormecer, alguns episódios muito simples da sua vida, pequenos relatos daquilo que, Palavra a Palavra, conseguia pôr em prática no seu quotidiano para depois melhor poder partilhar com as suas companheiras de aventura. Num deles conta: “Uma colega adoeceu com escarlatina, e toda a gente tem medo e a ir visitar. De acordo com os meus pais, pensei em levar-lhe os trabalhos de casa, para ela não se sentir sozinha. Acho que mais do que sentir medo, o importante é amar!”[4]

Noutra ocasião relata: “Tenho uma avó paralítica e, por obrigação, vou visitá-la. Mas não vou com muita frequência. Um dia fiz o propósito de a ir visitar mais vezes. E assim fiz. Todos os dias, depois das aulas, ia visitá-la. Quando estava a subir as escadas, estava cansada e disse: “Por ti, Jesus”. A minha avó ficava muito contente de me ver e agradecia-me sempre. Quando eu voltava para casa, sentia uma alegria enorme e então percebi que, se não tivesse ido, não teria sentido tanta alegria!!!”[5]

4. E assim pelo caminho, vivido, das Suas palavras, chega ao conhecimento sempre mais profundo de Jesus e de Jesus como Palavra totalmente desdobrada e contendo em si todas as Palavras: na cruz quando grita “Meu Deus, Meu Deus por que me abandonaste?”. Jesus Abandonado é, na espiritualidade da unidade, que segue, o modelo do amor máximo, de como se deve enfrentar o sofrimento e de como se constrói a unidade em circunstâncias de divisão. Ainda em 1983 escreve à outra Chiara (a Lubich, fundadora e Presidente do Movimento dos Focolares, onde aprende e vive estes passos de escolha): “Descobri Jesus Abandonado de um modo especial e senti-O em cada próximo que passava ao meu lado. Este ano estou disposta a reconhecer em Jesus Abandonado o meu Esposo, a recebê-lo com alegria e, principalmente, com todo o amor possível!” E poucos meses mais tarde, a partir de um outro encontro: “A realidade mais importante para mim (…) foi a descoberta de Jesus Abandonado. Antes, eu vivia-O de uma forma superficial, e aceitava-O para depois encontrar a alegria. Neste congresso, percebi que estava a fazer tudo errado. Não devia manipulá-Lo mas amá-Lo. Só isso. Descobri que Jesus Abandonado é a chave da união da unidade com Deus e quero escolhê-Lo como o meu primeiro Esposo e preparar-me para quando Ele vier. Dar preferência a Ele! Compreendi que O posso encontrar nas pessoas distantes de Deus, nos ateus, e que devo amá-los de um modo muito especial, sem ser interesseira”[6]

Michele Zanzucchi, o autor da biografia que, desta vez, seguimos mais de perto comenta assim esta escolha fundamental de Chiara: “Jesus Abandonado é um dos alicerces da Espiritualidade da Unidade. É o desejo de reviver o momento em que Jesus mais sofreu, quando gritou na cruz: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?”. É ali que está a chave da unidade entre os homens na Terra e também entre a Terra e o Céu. Ali está a sínteses da paixão e da morte de Jesus, e o segredo da sua ressurreição. E Chiara aos doze anos, acertou em cheio no mistério do cristianismo” [7]

5. Não é difícil assim perceber como toda a breve vida de Chiara grita um único tudo: Deus! Junta-se a quantos no mundo não se põem a si mesmos, nem ao trabalho, nem ao estudo em primeiro lugar mas só a Deus. E a partir dessa primeira e fundamental escolha são capazes de perceber melhor e melhor actuar todas as outras escolhas.

Assim o fez claramente… Chiara! Desde pequena que predilecção sua eram os mais pobres, débeis, excluídos: da sua própria casa (a alegria que sentia por poder ajudar e fazer companhia aos avós, idosos) e da sua amada Sassello à escola, primeiro da sua aldeia e, depois da cidade de Savona.

E à medida que o círculo se ia alargando também o seu coração se dilatava na medida sem medida do de Jesus, não se limitando à predilecção pelos excluídos de bens materiais ou de afectos mas preferindo também os ateus e os não crentes. Sabia instaurar com eles um diálogo profundo com extraordinária delicadeza e sem nunca transmitir a impressão de os querer convencer do que quer que fosse. Entre eles estava Amoretti, professor de literatura. Visitando-a, fica profundamente tocado e mesmo perturbado a ponto mesmo de afirmar: “Admirei nela a capacidade de viver o mistério, o sentido último, com naturalidade. Gostaria de dizer que talvez ela estivesse dentro das próprias respostas que nós procurávamos”[8]

6. A brevidade do percurso de Chiara não a fez escolher propriamente uma vocação mas foi o tempo suficiente para manifestar, nas palavras e sobretudo na vida, a clareza da sua escolha de Deus como Ideal, seu único tudo. E essa disponibilidade preparava-a serenamente para o que lhe viesse a ser pedido ou significado.

A ânsia de um mundo unido que acreditava ser possível e que de alguma forma trazia dentro de si, fê-la sonhar ser hospedeira. Mas também poder vir a fazer Medicina e tornar-se pediatra, pensando sobretudo nas crianças do Terceiro Mundo.

Sonhava também com uma família e chega a dar alguns primeiros passos de um namoro que não haveria de prosseguir. O rapaz chamava-se Luca, habitava na mesma aldeia onde tinha a fama de ser o bonitão, e tinha a sua mesma idade. A breve história tem altos e baixos também porque a beleza que interessa verdadeiramente a Chiara é a interior. A provocação de uma cena de ciúmes fá-la pensar quão diferente fosse a escala de valores dos dois e a própria visão de vida. Chiara não consegue pensar num relacionamento que, pelo menos potencialmente os encaminhasse para o matrimónio e assume a ruptura e de forma que partilha com uma amiga a quem escreve: “Continuamos muito amigos… Mas fiquei contente por ter acabado, porque, sobretudo agora sinto, mais profundamente a importância de uma amizade verdadeira!”[9]

7. Um tal exercício quotidiano (o exercício do reconhecimento da proposta de Deus para a sua vida e da possibilidade da sua resposta) preparou-a – e de que maneira – para manter vivas até ao fim e, sobretudo na prova da doença, as escolhas que havia antes empreendido. Não sem se perguntar, como o faz, a poucos meses da sua partida, em carta que dirige a Chiara Lubich na sequência da visita da mãe de Carlo Grisolia, um outro jovem dos Focolares falecido poucos meses antes: “… será que também eu vou conseguir ser fiel a Jesus Abandonado e viver para O encontrar como o fez o Carlo? Sinto-me tão pequena e o caminho a percorrer é tão árduo… Muitas vezes sinto-me esmagada pela dor. Mas é o Esposo que vem ao meu encontro, não é? Sim, eu também digo juntamente contigo: “Se é isso que queres, Jesus, também eu quero”![10]

Serão assim tantos os momentos em que como que actualizará esta escolha de Deus por ela e sua por Deus. Mas há um momento significativo e que parece mesmo decisivo tal como a mãe, Maria Teresa o conta (e o dvd-documentário ilustra de forma muito bela): “Há já algum tempo que ela tinha percebido que a situação ia de mal a pior e que era portadora de um verdadeiro cancro. Entretanto manteve intacta a esperança de ficar curada. Alguns dias depois da cirurgia, perguntou directamente ao médico qual era o verdadeiro diagnóstico. Assim ficou a saber a verdade sobre a sua doença, e também que iria perder os cabelos por causa da quimioterapia. Talvez tenha sido esse pormenor que a fez compreender a gravidade da doença: de facto, ela dava muita importância aos seus cabelos. Estávamos em Turim, na casa de amigos (…). Ainda a estou a ver a chegar ao jardim, enrolada no seu casaco verde. Tinha o olhar fixo no chão. Aproximou-se, parecia ausente e entrou em casa. Perguntei-lhe como é que tinha corrido. E ela: “Agora, não! Não me digas nada, agora!” Atirou-se de bruços para a cama, com os olhos fechados. Ficou assim durante vinte e cinco minutos. Senti-me a morrer mas o único modo de estar ao lado dela naquele momento era ficar calada, sofrer com ela. Era uma batalha, aquela que Chiara estava a travar. Depois, ela virou-se e disse-me a sorrir: ‘Agora, podes falar’. Conseguiu! Disse novamente o seu sim. E nunca mais voltou atrás!” [11]

Franz Coriasco, irmão da sua melhor amiga e autor de um magnífico livro sobre Chiara Luce [12] (até pela perspectiva sincera e honesta de um não-crente que ele também é) comenta assim (também no dvd já citado) aquele momento: “Foi muito provavelmente o momento mais duro da sua vida, das escolhas decisivas e irrevocáveis. Se a sua vida fosse um filme, aquele seria indubitavelmente o momento clímax. Ou o seu Getsemani, como escreverão alguns anos depois os teólogos da Comissão”[13].

PISTAS PARA REFLEXÃO

1. As escolhas de vida que Chiara Luce faz, nascem da certeza da escolha do Amor imenso de Deus por ela, em todas as circunstâncias, mesmo nas mais difíceis: a sua é uma resposta à proposta de Jesus! E a minha? Vivo também eu dessa certeza?

2. Os passos com que tece a sua vida, Chiara alimenta-os com a Palavra, particularmente do Evangelho que não só escuta e lê mas põe em prática, escrevendo e partilhando com os outros as suas experiências. E eu que lugar tem na minha vida a Palavra? Como a vivo? E como partilho com os outros a vida que em mim ela suscita?

3. Para Chiara Luce a Palavra é uma pessoa, tem um rosto: è Jesus sobretudo na sua máxima doação por todos (no Seu Abandono) que ela quer incondicionalmente seguir. É assim também para mim?

4. À luz desse encontro há, na vida de Chiara, uma especial predilecção pelos mais pobres e excluídos (de bens e, particularmente, do grande Único Bem – Jesus). Que interpelação é que isso me pode fazer?

É também essa escolha que inspira o modo como Chiara se vai encaminhando vocacionalmente, quer em relação ao seu projecto de vida, em geral, quer também à própria profissão. E o que é mais pesa, como critério, nas minhas escolhas fundamentais?



[1] Michele Zanzucchi, Chiara Luce, Cidade Nova 2010, p. 144

[2] Ibid., p. 63

[3] Ibid., pp. 35, 36

[4] Ibid., pp. 32-33

[5] Ibid. p. 131

[6] Ibid., pp. 33-34

[7] Ibid. , p. 34

[8] Cf. Franz Coriasco, Dai tetti in giù – Chiara Luce Badano raccontata dal basso, Città Nuova, 2010, p. 78

[9] M. Zanzucchi, ibid., p. 134

[10] Ibid., p. 72

[11] Ibid., pp 54-55

[12] Franz Coriasco, Dai tetti in giù – Chiara Luce Badano raccontata dal basso, Città Nuova, 2010

[13] Ibid., pp. 68-69