Quarta-feira, 14 de Dezembro de 2011

TRIUMBEATO nº 2 (Dezembro): INFÂNCIA





1. (A infância de) Pier Giorgio Frassati

O realizador sul-coreano Kim Ki-duk, no seu
filme “Primavera, Verão, Outono, Inverno... e Primavera” (2003), compara a Infância à “primavera” da vida de um jovem (algo que o nosso Rui Veloso também faz, embora falando da “adolescência”, numa canção que é quase um “hino” da nossa juventude e que, por isso, de certeza conhecerás…). E, como sempre acontece no bom cinema, a “colagem” (metafórica) entre essas duas “realidades” parece ser notória (além de ser notável): tal como a Primavera, a Infância é essa (tenra) idade em que tudo o que é belo desponta e floresce, em que o mundo (e as suas cores e sons, sabores e texturas) é sempre e totalmente novo, em que a memória se (pre)enche daquelas aprendizagens que hão-de ser, ao mesmo tempo, a base e o sustento da personalidade (agora) em (muito rápida) construção.



Revisitar esse tempo (dos sorrisos e das gargalhadas, das brincadeiras e dos jogos) e os lugares (de descoberta e de aprendizagem, de jogo e de aventura) onde esse tempo se espraia e onde parece não ter fim, (e especialmente neste tempo de Advento...) é “re-visitar”/”re-entrar” no nosso próprio “mistério” (algo nada estranho a certas correntes de Psicologia/Psicanálise que procuram, precisamente no “ontem” da Infância, as “causas remotas” dos distúrbios… do “hoje”); mas também é manifestação de um desejo (mais ou menos assumido) de aí permanecermos, indefinida e eternamente, longe das preocupações, problemas e desafios que o crescimento e a vida (mais) adulta sempre supõe e rapidamente inaugura.


Regressemos e revisitemos, pois, a Infância do jovem Pier Giorgio Frassati, como quem se abeira de uma árvore (ainda) em crescimento: tendo conhecido já as suas “raízes” (a sua Família, no passado mês), vejamos agora como desponta a vida deste jovem com quem muito temos a aprender.

Como foi a INFÂNCIA de PIER GIORGIO FRASSATI?
Não obstante alguns problemas/desequilíbrios familiares de que padecia a sua família (fruto, em grande parte, da personalidade rígida e autoritária de seu pai e das “constantes inconstâncias” de humor de sua mãe), pode-se dizer que a infância de Pier Giorgio foi uma infância feliz. Com efeito, se é costume dizer-se que “é pelos frutos que conhecemos a árvore”, no caso de Pier Giorgio se poderia dizer que já no “caule/tronco” se poderão imaginar/vislumbrar os “frutos”. O jovem Frassati foi, desde sempre, uma criança viva e sempre em movimento, ao ponto de lhe chamarem «Sonntagskind», “o filho da festa”, uma alcunha alemã. Pier gostava de brincadeiras barulhentas, das corridas, da bola, de andar de bicicleta, sempre com a sua irmã Luciana, companheira inseparável. Os períodos de férias, passados em Pollone (a região de onde seus pais eram oriundos) eram os momentyos mais esperados (porque os mais felizes) por toda a família, especialmente por Pier Giorgio. Amante dos animais e da natureza, o menino passava aqueles dias rodeado de cães e de gatos. Gostava de se empoleirar numa árvore, equilibrando-se num ramo grosso: era a sua insólita escrivaninha, onde ele estudava as suas lições e se punha, por vezes, a declamar poesia, em voz alta. E é quase impossível não ver aqui, neste seu “à-vontade” (que mais não é do que o sentir-se parte integrante de um imenso e belo quadro que é a toda a Criação) a mesma “irmandade” de um outro jovem (S. Francisco de Assis) que também tratava por “tu” os animais e as plantas. Porque uma espécie de “adulto em ponto pequeno”, as suas diversões confundiam-se com pequenos trabalhos que prontamente e com imensa satisfação e gozo se propunha realizar: fosse a sachar ou a transportar lenha, a recolher os cestos de fruta ou a transportar o adubo ou a regar o jardim, era muito comum vê-lo a ajudar o hortelão da vila, como que dando corpo àquele outro ditado popular que diz: “Trabalho de menino é pouco, mas quem o perde é louco.”


Brincalhão, vivaço, alegre e sempre de bom humor, era ele que trazia cor e alegria à casa Frassati. Menino de personalidade forte, marcada, por vezes, de um pendor algo impulsivo, mas que, não obstante essa sua “exuberância” natural, conseguia ser também uma criança deveras afectuosa e preocupada, consciente e responsável, especialmente sensível ao sofrimento dos outros: “…quando Pier tinha quatro anos, bateu à porta da casa Frassati uma mulher com uma criança descalça ao colo. Pier viu e compreendeu imediatamente: tirou os sapatos e deu-lhos, depois fechou rapidamente a porta para que ninguém soubesse.”


Este seu lado “misterioso” era também visível/palpável na sua sensibilidade para com a dimensão espiritual/transcendente. Já sabemos que, da parte de seus pais (o pai, um agnóstico; a mãe, uma senhora de sociedade apenas preocupada com o cumprimento rigoroso dos respectivos “rituais”, onde se incluía a religião), Pier Giorgio não poderia esperar um especial testemunho cristão. Valeu-lhe, a ele e à sua irmã, que seus pais os tenham entregue a educadores que, a pouco e pouco, lhes foram inculcando os valores (também cristãos) que seus pais não poderiam/saberiam transmitir (por deficit testimonial).


Assim, e numa primeira fase, os dois irmãos recebem instrução escolar em casa, de uma professora privada, chamada Rosina Buratto. Deste modo, sua mãe sentia-se mais “livre” para as suas pinturas, e o seu pai mais tranquilo com o rumo do seu plano (estruturado ao pormenor… mas que haveria de falhar) para a educação dos seus filhos.


Como filhos que eram de “gente importante”, em 1910 os dois irmãos começam o primeiro ano de liceu no “Massimo d’ Azeglio”, um dos liceus mais prestigiados de Turim. Aí, o padre António Cojazzi, Salesiano e educador experiente, começou a dar-lhes explicações particulares, tendo-se transformado, assim, numa espécie de preceptor. Não obstante este especial “investimento” do casal Frassati, Pier não se revelava um grande adepto dos estudos: “Na passagem do segundo para o terceiro ano do Liceu estatal, Pier foi reprovado a Latim…”, o que o fez entrar no Instituto Social dos padres Jesuítas (onde frequentou esse terceiro ano), convencido que estava seu pai de que era necessária uma maior exigência e um maior rigor para que aquele tipo de “deslizes” não voltassem a acontecer. Mais tarde, Pier haveria de concluir, não sem um grande esforço, a sua licenciatura… mas não com o objectivo de “ser mais” mas antes de “servir melhor” aqueles e aquelas que mais precisavam, como adiante veremos…


Começava então um tempo de alargamento dos (já largos) horizontes por onde Pier Giorgio espraiava o seu olhar e, com ele, as suas meditações e descobertas, ao mesmo tempo que crescia, “em sabedoria e em graça”. Isso mesmo testemunhava o dito preceptor: “Resolvidos os deveres escolares, Pier levantava-se do assento, plantava-se de braços cruzados e fixando-me com os seus olhos negros enormes, dizia-me: ‘E agora conta-me um fato de Jesus.’” A responsabilidade (estudo), a alegria (as brincadieras) e a oração começavam, assim, a transformar-se nas “traves-mestras” de uma personalidade viva e exigente, que em tudo via novidade e graça, em tudo imaginava mundos desconhecidos onde queria entrar “de rompante”… mas era Jesus, esse outro Menino, também Ele (e como ele, Pier Giorgio) “sentado entre os doutores, a ouvi-los e a fazer-lhes perguntas…” (Lc 2,41-52) que despertava nele uma curiosidade tal que a Ele parecia querer sempre regressar, pois com Ele começava a construir uma amizade cada vez mais profunda (e que haveria de ser sustento e garante de toda a coragem e determinação futuras que o haveriam de caracterizar). Por aqui se poderá não só imaginar a alegria como a coragem e a determinação demonstrada por Pier Giorgio em lutar por aquilo (e por Aquele) em que(m) acredita: quando lhe foi dada a possibilidade de receber todos os dias Jesus, na Eucaristia, “no início, a mãe não consentiu (…), mas ele acabou por dobrar a vontade materna.”


Porque não podia contar com o testemunho cristão dos seus pais, algo a que aqui já se fez referência, também na vivência da sua fé (que é também relação de proximidade-amizade com Deus) Pier Giorgio se manifestou ser uma espécie de “autodidacta”: gostava de rezar, muito recolhido, pelo seu livrinho de orações; ou então meditar em silêncio e ficar em adoração diante do Sacrário, onde estava o seu Amigo por excelência. Em casa, tinha o hábito de, à noite, se ajoelhar aos pés da cama, em pijama e, com o terço na mão, começar a rezar. E é assim que se nota que “há [nele, Pier Giorgio] uma ‘Presença’, doce e misteriosa, que bem cedo lhe fala ao coração” e que, mais tarde, o haveria de fazer gritar, com a voz e com a vida, as “bem-aventuranças” que pautaram o seu testemunho.
Mas atenção: para Pier Giorgio esta amizade era demasiado profunda, demasiado importante, demasiado bela para não ser alargada, partilhada, testemunhada, especialmente junto daqueles e daquelas que mais precisa(va)m de um (rosto, palavra, mão, ombro) amigo: ainda que sendo muito jovem, Pier deixou-se marcar (e bem fundo!) pela tripartida “imagem de marca” de qualquer cristão: uma Fé (sempre e necessariamente relacional) profunda, uma Esperança (que é sinónimo de alegria confiante) inabalável, e uma Caridade sincera e desprendida, concreta e palpável, porque atenta à realidade do mundo. Com efeito, “Ainda não tinha onze anos e já a sua mente era atormentada com pensamentos sobre a miséria, contra os quais tentava lutar com os seus pequenos trabalhos, como juntar pratinhas, bilhetes de comboio, selos de correio para os missionários”. À semelhança do que também poderemos recordar na nossa infância, ora o seu tio, ora a avó davam-lhe muitas vezes algum dinheiro que acabava sempre no bolso dos pobres. Vemos, assim, que ele preferia investir num “banco diferente”… um banco que não lhe propunha TAEGs favoráveis nem tentadoras propostas de spread… mas que lhe haveria de render a cem por um.



Um “adulto em ponto pequeno”. Um menino desperto ao mundo, de olhos e corações bem abertos ao que vê… e Àquele que, não vendo, pressente. Um rapazinho alegre e determinado, brincalhão e trabalhador, para quem a vida era demasiado bela para ser desperdiçada com tristezas, para quem a oração era a fonte de uma alegria e de uma inesgotáveis. Assim poderíamos resumir como e quem foi Frassati na sua infância. Um menino que se deixou imbuir do melhor que esses “verdes anos” da sua/nossa existência nos tem para oferecer, tudo captando e haurindo, pois tudo (pres)sentia (e já sabia) ser um Dom muito precioso.

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Pista(s) para a tua reflexão…


1. É provável que, ao leres este “breve resumo” da infância de Pier Giorgio (recomendamos-te que nunca deixes de ler a respectiva Biografia para mais pormenores…), te tenhas recordado da tua própria infância… Sugerimos-te que registes esses “traços comuns” entre a tua história e a de Pier Giorgio (os primeiros anos… as brincadeiras… a entrada para o liceu… as férias… os ensinamentos dos teus pais, avós e demais familiares…)… e depois respondas à seguinte questão: onde, quando, em que situações é que se torna possível perceber que, o que eu sou hoje, já “ali” se estava a manifestar?


2. O que é que mais te impressionou no relato da infância de Pier Giorgio? Encontras alguma dimensão em que gostarias de o ter “imitado”?


3. Como caracterizas a relação de Pier Giorgio com a fé/Jesus/Palavra de Deus?


4. Escuta a música “Se eu voltasse atrás” dos Pólo Norte. Reflecte nela por alguns momentos e regista o que gostarias de poder “guardar” para o teu presente/futuro.


5. Lê e comenta, em grupo, os seguintes textos retirados dos documentos do II Concílio do Vaticano.

“Os filhos, como membros vivos da família, contribuem a seu modo para a santificação dos pais. Corresponderão, com a sua gratidão, piedade filial e confiança aos benefícios recebidos dos pais e assisti-los-ão, como bons filhos, nas dificuldades e na solidão da velhice.” (Gaudim et Spes, nº 48)
“A família é, prioritariamente, como que a mãe e a fonte da educação: nela, os filhos, rodeados de amor, aprendem mais facilmente a recta ordem das coisas, enquanto que as formas aprovadas da cultura vão penetrando como que naturalmente na alma dos adolescentes, à medida que vão crescendo.” (Gaudim et Spes, nº 61)

“Pertence aos pais ir dispondo os filhos, desde a infância, para conhecerem o amor de Deus por todos os homens, e ir-lhes inculcando pouco a pouco, sobretudo com o exemplo, a preocupação pelas necessidades materiais e espirituais do próximo. Que toda a família se torne, pois, na sua vida íntima, como que um estágio do apostolado. Além disso, as crianças devem ser educadas de tal modo que, transcendendo os limites da família, se abram tanto às comunidades eclesiais como às civis. Sejam de tal modo integradas na comunidade local da paróquia que nela possam tomar consciência da sua qualidade de membros vivos e activos do Povo de Deus. Os sacerdotes, porém, na-catequese e na pregação, na direcção espiritual, bem como em outras actividades pastorais, tenham em conta a formação em ordem ao apostolado.” (Apostolocam Actuositatem, nº 30)



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2. (A infância de) Marcel Callo







Enquanto criança, Marcel Callo não se distanciava do comum desenvolvimento no seio de uma família que, sendo pobre, não passava necessidades.
Vivendo inicialmente numa casa arrendada, conseguiram adquirir uma outra antiga que remodelara
m. Enquanto tal, ocupavam a cave. Marcel dizia: “Vivemos durante um Inverno como o Menino Jesus na manjedoira”. Tinha dois pisos. Nas traseiras eram os lavabos e uma divisão onde tomavam banho numa tina com água quente trazida da cozinha.
A Igreja de Saint-Aubin, onde Jean e Marcel acolitavam na missa todas as manhãs, distava apenas dez minutos de sua casa. A Primeira Comunhão fizera-a aos 7 anos, no Convento da Adoração enquanto que a Comunhão Solene, como hoje, teve lugar um pouco mais tarde. O Sacramento da Confirmação recebeu-o aos 12 anos de idade.
Frequentou a escola primária da Paróquia, onde os dois Sacerdotes de Saint-Aubin eram professores. Foi membro da Cruzada Eucarística (secção infantil do Apostolado de Oração – uma piedosa união de meninos e meninas de todo o mundo católico, para alcançar a conversão das nações e a restauração cristã da sua pátria. Chama-se Cruzada porque, à semelhança dos guerreiros antigos, que foram ao Oriente combater os infiéis e libertar os Lugares Santos, a C.E.C. procura libertar as almas e as nações do jugo do demónio, para que nelas só reine Jesus Cristo. Eucarística – porque a sua grande arma de combate é a Comunhão frequente.), hoje chamada Movimento Eucarístico Jovem (MEJ).
Durante algum tempo, Marcel fez parte dos escuteiros, mas acabou por desistir por falta de recursos para pagar o custo das atividades, o que o levou a chorar de tristeza.
É tido hoje como o primeiro escuteiro que ascendeu às honras dos altares. Como sublinhou o Papa João Paulo II, na Homilia da Beatificação “não chegou sozinho à perfeição evangélica: família modesta, profundamente cristã aí o conduziu. Os escuteiros e depois a JOC prosseguiram a obra. Alimentado pela oração, pelos Sacramentos e pela acção Apostólica pensada segundo a pedagogia destes movimentos, Marcel construiu a Igreja com os seus irmãos e Jovens trabalhadores cristãos…”
Por este tempo, em França a escolaridade obrigatória limitava-se aos 13 anos de idade. Foi por esta altura que começou a trabalhar como aprendiz de tipógrafo, numa tipografia cujo patrão mantinha boas relações com a autoridade eclesiástica da cidade. Todavia, deparou-se com a atitude de rejeição face à Religião por parte dos colegas que pronto o rotularam de “beato”. A ideia dominante era a de não ir à igreja porque achavam que esta não se preocupava com a classe trabalhadora e era conivente com os que a exploravam. Os temas de conversa desciam até ao imoral. Este ambiente feria-o nos seus princípios mas tinha necessidade de ganhar algum dinheiro para ajudar os pais. Trabalhava oito horas por dia, de pé.
Apesar de todas estas dificuldades, conseguiu passar aos seus colegas de trabalho a mensagem do respeito cristão a ponto de lhe atribuírem o apelido “Jesus Cristo”.
Foi neste período difícil da sua vida que encontrou o apoio de um grupo de jovens da Paróquia de Saint-Aubin, JOC (Juventude Operária Católica – é um movimento Internacional fundado na Bélgica em 1925 por MonsCardijn e que se iniciou em Portugal em 1935. São seus militantes jovens trabalhadores, estudan
tes ou desempregados que estão marcados pela condição operária da família, trabalho e cultura. Defendem a dignidade e os direitos dos jovens do meio operário), cujos membros eram conhecidos por Jocistas. Grupos de jovens debatiam temas com determinado sentido prático «ver-julgar-agir» com o qual se pretendia que os jovens operários pensassem e reflectissem sobre a situação do mundo de trabalho e da sociedade e, depois, fossem levados a agir através de medidas que melhorassem as situações específicas.
No entretanto, continuava a encontrar o apoio emocional no seio da família. Sua mãe cansava-se a tomar conta dos mais pequenos e por isso Marcel dedicava as manhãs de sábado aos trabalhos domésticos, fazendo uma limpeza geral à casa. Fazendo-se apoiar pelos irmãos mais novos que o apelidavam de «mandão». Aos Domingos a Senhora Callo ia à primeira Missa, às 6 h30m da manhã. O marido e os filhos iam à missa das 10h, enquanto a mãe ficava a preparar o almoço. À tarde, iam visitar o irmão mais velho, Jean, ao seminário. Marcel ficava em casa a lavar a louça e depois ia para o encontro da JOC, que durava até à noite.
Marcel foi como todas as crianças: tinha imperfeições e qualidades. Era, como todo o ser humano, pecador pelo que não chegou de imediato à perfeição evangélica. “A sua força de vontade, na luta contra as tentações do mundo, contra si próprio, contra o peso das coisas e da gente, plenamente disponível à graça, deixou-o progressivamente conduzir-se pelo Senhor…”Homilia do Papa João Paulo II, na Eucaristia da Beatificação do Marcel Callo, Antonia e PierinaMorosiniMesina, dia 4 de Outubro de 1987
E tu, jovem, deixa-te questionar:
- Que leitura fases das marcas deixadas pela infância de Marcel Callo?
Como o influenciaram no seu percurso de santidade?
- A sua entrega ao outro, já no seio familiar, já no primeiro trabalho, apontaram para a construção da sua personalidade futura. Pensas ser ainda possível educar hoje na mesma linha?
Reflete e partilha a tua opinião.
- O testemunho de Marcel Callo fez eco no pequeno espaço laboral. O seu perfil comportamental implantou os princípios que o animavam: ser cristão no meio do mundo.
Como transportar para a tua realidade a capacidade deste testemunho?
(Ilustra a reflexão que fizeres com situações da tua vida.)


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3. (A infância de) Chiara Luce Badano


Uma infância serena…

Todas as biografias oficiais[1] falam de uma infância serena. Filha única e muito desejada era também por isso circundada pelo afecto de tantos parentes: dos tios aos primos sem esquecer os avós maternos (que Chiara adorava) e tantos outros, todos atingidos por um regular síndrome prendístico e também pelo mimo com que não a poupavam.

… bem alicerçada em escolhas!

Mas os pais não dispensaram as necessárias medidas para evitar que se afogasse em caprichos: desde os primeiros meses foi habituada a dormir sozinha, a comer tudo sem fazer histórias, a distinguir o justo do errado, a necessidade de harmonizar os prazeres com os deveres. Diálogo e afecto misturavam-se, pois, com momentos em que se devia dizer "não" aos caprichos de Chiara que, querendo ou não, corria o risco de crescer mimada. "Tínhamos consciência desse risco! Por isso, desde os primeiros anos, queríamos deixar as coisas bem claras. Não perdíamos a oportunidade de ajudá-la a fazer as coisas diante de Deus", diz a mãe.

Um pequeno facto ajuda a explicar quer a massa de que era feita, quer o ambiente que criava naquela família. Um dia a mãe Teresa propôs a Chiara que diminuísse um pouco a montanha de brinquedos do seu quarto para oferecer alguns às crianças pobres. Chiaretta responde-lhe “NÃO, mamã, são meus!” Nunca foi de meias medidas, Chiaretta. Mamã Teresa não comentou e regressou aos seus afazeres na cozinha: nunca foi do género de ataque frontal, Teresa. Mas após um pouco sentiu uma vozinha chegar do seu quarto: “Este sim, este não, este sim, este não…”. Aproximou-se da porta e notou que a criança estava a dividir em dois montes os seus brinquedos: de um lado os bons e, do outro, aqueles já um pouco estragados. Pediu depois um saco à mãe e começou a colocar dentro os novos: “Aos pobres não se podem oferecer os brinquedos estragados!”, respondeu segura ao olhar interrogativo de Teresa.

Seja o vosso falar: sim, sim, não, não

É conciliadora, embora saiba defender as suas ideias e discutir com os pais. Mas esse "conflito" dura apenas alguns minutos. Acontecia frequentemente assim quando alguma coisa lhe era pedida ou sugerida. “Uma vez – recorda Teresa – pedi-lhe para recitar as orações: “Não, eu não rezo!” disse-me decidida. “Então rezarei eu na tua vez”, respondi-lhe. E após um pouco ouvi-a a recitar as suas oraçõezinhas”. Uma outra recordação daquele período: a mãe pede-lhe que lave a louça."Não, não quero!"- responde ela. E vai para o quarto. Logo depois volta e diz: "Como é aquela história do Evangelho, dos dois operários que devem ir à vinha, e um diz que sim, mas não vai, e o outro diz que não, mas vai? Mamã, dê-me o avental". E lava a louça.

Hoje, os pais comentam: “a obediência que exigíamos nunca era uma obediência cega, tinha o direito de dar a sua opinião, mas sempre na verdade”. A mãe: “antes de fazer qualquer repreensão, eu devia renegar-me a mim mesma, para deixar ‘o amor passar’”. E o pai: “eu era um pouco severo, por natureza. Era exigente com ela… mas fazia-o com amor, nunca por teimosia, e repito, nunca por teimosia, por cansaço ou por qualquer outro motivo.”

Assim era feita a futura Beata Chiara Badano, a partir das crónicas familiares: a primeira resposta era quase sempre um não decidido mas sem se zangar (e aceitando mesmo os castigos). E assim será ao longo dos anos em que nunca obedecerá de maneira passiva: primeiro discute, reivindica as suas razões e até tudo estar claro não cede. Depois reflectia sobre isso, pesava os termos e a legitimidade do pedido e, se fosse o caso, voltava a pensar. Era o seu modo de fazer e acompanhá-la-ia até ao fim.

Aprender a verdade

Na casa Badano todas as ocasiões são boas para aprender os valores fundamentais da vida. Como daquela vez quando, ainda aos cinco anos – conta a mãe - "chega uma tarde a casa com uma linda maçã vermelha. Questionada, Chiara responde que apanhou a fruta no quintal da vizinha. Explico-lhe que ela deve pedir antes de tirar e que, por isso, tem de devolver a maçã, pedindo desculpas à vizinha. Mas ela fica acanhada e não queria ir. Insisto: é muito melhor dizer a verdade do que comer uma boa maçã. Então, Chiara procura aquela senhora e explica-lhe tudo. À noite, a nossa vizinha traz uma cesta de maçãs para Chiara, justificando: ‘Hoje ela aprendeu algo de muito importante’ ".

Uma tal aprendizagem concreta depressa se há-de manifestar, logo com as primeiras letras que aprende a escrever. Ainda não tem 9 completos anos quando escreve num trabalho para a escola: “Um dia nasceste. Ninguém te perguntou se querias viver. Mas agora vives. Às vezes é belo. Outras vezes estás triste. Há muitas coisas que ainda não compreendes. Vives mas porquê? Com as tuas mãos deves ajudar a reordenar o mundo. Com o teu intelecto deves procurar distinguir o bem do mal. Com o teu coração deves amar os homens e ajudá-los quando podes. São todas as tarefas que te esperam. Que esperam as tuas mãos, o teu intelecto e o teu coração”

E, dois anos antes, na sua primeira redacção: “sonho o dia em que os filhos dos escravos e dos seus patrões se sentarão juntos à mesa da fraternidade, como Jesus com os apóstolos”

É por isso natural que no fim da escola elementar a encontremos sorridente e segura de si na fotografia de grupo, juntamente com os outros 14 colegas de escola. E a anotação da professora na ficha de avaliação do segundo quadrimestre sintetiza perfeitamente o carácter e a personalidade: “O alto sentido de responsabilidade e o empenho constante permitiram a Chiara conseguir óptimos resultados em todas as actividades de estudo. Criou óptimos relacionamentos com os colegas para quem esteve sempre disponível. Demonstrou afecto e estima para com a professora. Tem um temperamento vivo mas consegue controlar-se sempre, pelo que nunca foi necessária alguma chamada de atenção”.

PISTAS PARA REFLEXÃO

1. Também na minha história terei tido (e continuarei a ter) momentos de escolha: de outros em relação a mim mas meus também em relação ás opções que livremente posso fazer.

Como reconheço a sua importância? E como os vivo?

2. A parábola do Evangelho que Chiara espontaneamente recordou, fala de dois filhos, ambos convidados a trabalhar na vinha do seu pai, sendo que um respondeu não mas depois foi e outro prontamente disse sim acabando, no entanto por não ir.

Com qual dos dois me identifico? E o que posso aprender a este propósito de Chiara, ainda menina?

3. A vida do Evangelho que Chiara foi aprendendo, depressa a soube exprimir também nas letras e palavras com que começou a escrever.

Qual é o meu olhar sobre o mundo e a as pessoas a partir do Evangelho?

Ouso também pensá-lo e exprimi-lo em todas ocasiões?

4. Todos somos chamados ao serviço concreto da educação: mesmo se de formas diferentes (em vocações ao matrimónio, à vida consagrada…) e em idades diversas (também Chiara não se furtará à responsabilidade para com as companheiras mais novas).

Na educação de Chiara o que podemos nós aprender dos pais Maria Teresa e Ruggero?



[1] Para além de MIchele Zanzucchi, Chiara Luce, Editora Cidade Nova 2010 seguimos também o ainda não traduzido em português Franz Coriasco, Dai tetti in giù – Chiara Luce Badano raccontata dal basso, Città Nuova Editrice 2010.









































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